Qual o modelo ideal de relacionamento das startups com empresas estabelecidas?

Por Antonio Prado, Head de Atendimento da PinePR


Envolvidos 24 horas por dia com o ecossistema de startups, vemos inúmeras formas de interação de novas companhias com empresas tradicionais. Foi-se o tempo em que existia somente um antagonismo, como se os novos entrantes viessem para destronar players estabelecidos: cada vez mais, negócios se estruturam com base em necessidades não atendidas de grupos específicos de consumidores. E isso é muito bom, pois abre novas possibilidades.

Para empresas estabelecidas, startups podem ser concorrentes terríveis, ou parceiros maravilhosos. Tudo depende da postura, do grau de maturidade digital e da disposição de transformar negócios e cultura para acompanhar a evolução do mercado. E é isso que torna o ecossistema cada dia mais interessante.


Com a evolução do mercado, passamos a ver diferentes formatos de construção e desenvolvimento de startups:

  • O tradicional empreendedor visionário que percorre o ciclo angel/seed money e avança para novas rodadas conforme o negócio evolui;

  • A startup que já nasce com o objetivo de realizar seu IPO e uma ambição de crescimento global;

  • A empresa que consegue seu funding com fundos de private equity que atuam como mentores;

  • A startup que atua em vários hubs de inovação para ter acesso a mais ideias e recursos;

  • Negócios que participam de concursos, plataformas e iniciativas de corporações estabelecidas, visando aperfeiçoar suas ideias e conseguir novo funding;

  • Startups que estruturam parcerias operacionais ou societárias com empresas estabelecidas, contribuindo para a digitalização dos seus parceiros;

  • Empresas que se tornam parte de corporações e precisam lidar com o desafio de se inserirem em culturas diferentes.

O mais interessante é que, em muitos casos, várias dessas situações acontecem ao mesmo tempo, ou em rápida sucessão. Uma das grandes – e melhores – consequências da aproximação entre startups e grandes empresas está na simbiose entre elas. Nesses casos, as empresas aproveitam a proximidade com as startups para acelerar sua capacidade de inovação, enquanto as startups aproveitam para aplicar suas soluções a problemas reais, em ambientes reais.


Cada caso é um caso

Como já dissemos em um artigo anterior, inovação depende, em última instância, de três fatores: flexibilidade, capacidade de entender as mudanças, e pessoas. Para as empresas estabelecidas, a inovação só acontece quando existem times dispostos a questionar o “jeito de sempre” e líderes que abram mão da tradicional mentalidade de controle. Espaço a novas ideias é fundamental para que a inovação floresça.

E é justamente por isso que não existe um modelo ideal de interação entre startups e empresas estabelecidas. Embora por definição toda startup abra muito espaço para tentativa e erro, do outro lado estão companhias com ideias próprias e um track record de décadas de sucesso – caso contrário, elas não teriam chegado aonde chegaram. O grande desafio, então, é encontrar o mix ideal de integração, controle e laissez-faire para que a inovação seja guiada por princípios, mas não seja tolhida por regras rígidas.

Assim, empresas diferentes percebem que modelos diferentes podem fazer sentido para o seu negócio:


Labs de inovação

Existem casos em que as empresas estabelecidas tomam para si a missão de guiar um pool de startups em busca de soluções para problemas específicos de mercado. O desenvolvimento de Labs próprios de inovação faz muito sentido nos casos em que é possível definir de antemão quais os problemas a serem atacados, mas faltam recursos internos ou amplitude de visões para solucioná-los.

Um bom exemplo é o do Hospital Israelita Albert Einstein, que incentiva a experimentação em seu lab e conta com a Eretz.bio, uma incubadora, para investir em startups que tenham mostrado grande potencial. Promovendo articulações e parcerias, a Eretz.bio tem, entre seus parceiros, três clientes da Pineapple Hub: Escala, MedRoom e Fix It. Em áreas tão diversas quanto próteses por impressão 3D ou gestão de Recursos Humanos, as startups trazem soluções que possam ser aplicadas aos negócios já existentes.


Open Innovation

O conceito de “inovação aberta” ganha cada vez mais importância, uma vez que o mundo se torna mais imprevisível. Assim, passa a ser muito difícil ter dentro de casa tudo o que é necessário para responder às mudanças. Em um modelo de Open Innovation, a empresa identifica um “ponto de dor” em seu negócio e lança um desafio para que as startups resolvam.

O interessante do Open Innovation é que ele traz um fluxo de inovações que pode polinizar a empresa de inúmeras formas. Não é porque uma ideia não funciona naquele momento que não pode funcionar no futuro, ou em outro problema que aconteça. Isso faz com que empresas com uma estrutura de Open Innovation sejam impactadas de uma forma muito positiva, com um espírito de busca constante por novas formas de solucionar problemas.


Aquisições e participações em startups

Um terceiro framework que abre inúmeras oportunidades para empresas estabelecidas é a compra de participações em startups. Essa é uma forma de “amarrar” estrategicamente startups que apresentam potencial de ter grande impacto no negócio das empresas e que podem agregar novas capacidades.

Com esse modelo, a empresa pode passar a utilizar a expertise da startup para inocular seus próprios processos de negócios com um novo DNA, em um ciclo que tem um imenso potencial transformador. É também uma forma de entrar rapidamente em novos negócios que sejam complementares, que aprofundem sua expertise ou que façam sentido em uma estratégia ampliada de ecossistema de negócios.

É o que aconteceu, entre inúmeros exemplos, com Supermercado Now e Lojas Americanas, ou entre KaBum! e Magazine Luiza. Em ambos os casos, as varejistas adquiriram as startups e passaram a ter acesso a novos consumidores, em novas categorias, nas quais tinham uma presença ainda modesta. Dessa forma, saltaram anos em sua maturidade nesses segmentos e se tornaram muito mais competitivas.


Não existe um único modelo que sirva para todos. Nem mesmo somente um modelo: nada impede que uma empresa estabeleça seu lab de inovação, crie programas consistentes de Open Innovation e adquira participações naqueles negócios mais promissores. Em um mundo mais intenso e de mudanças rápidas, fazer de tudo um pouco é até mesmo recomendável. Desde que você seja capaz de fazer tudo isso de maneira excelente.

Você está preparado para este desafio?


 

Antonio Prado é Head de Atendimento na PinePR e conta com mais de 11 anos de atuação em relações públicas e assessoria de imprensa. Como Head de Atendimento na PinePR, busca expandir a atuação da agência em gestão de crise e reforçar o atendimento de scale-ups e unicórnios, por meio de uma gestão estratégica e criativa focada em resultados e na excelência do atendimento.